Motores de Combustão Interna

Photos by Georg Eiermann and Wartsila

Os motores de combustão interna foram concebidos e desenvolvidos no final do século 19 e considera-se uma das mais importantes invenções da humanidade devido à sua aplicação em diversos setores da vida moderna.

Eles competem com os motores elétricos, turbinas a gás e turbinas a vapor em diversas aplicações.

O aumento da eficiência e a diminuição nas emissões constituem a grande evolução tecnológica ocorrida nos últimos 100 anos. Atualmente, motores com 50% de eficiência se encontram disponíveis, sendo as máquinas térmicas mais eficientes encontradas no mercado.

A Tabela 1 apresenta a matriz de tipos de motores de combustão interna conforme o ciclo termodinâmico e o número de tempos.

Nikolaus Otto (1832-1891) inventou o motor de combustão interna utilizando uma mistura de comprimida de combustível e comburente detonada através de centelha com ignição temporizada em 1876. Em decorrência do sucesso dessa invenção, o ciclo termodinâmico que descreve seu funcionamento recebeu o nome de Ciclo Otto.

Os motores que seguem o Ciclo Otto necessitam de uma ação externa para iniciar a combustão. A faísca elétrica permite realizar essa função de forma eficiente, e a vela de ignição dos motores de automóveis se tornou universal.

Porém, outras soluções são possíveis. Por exemplo, pode-se utilizar outro tipo de combustível para iniciar a combustão do combustível principal.

Em 1897, Rudolph Diesel (1858-1913) criou o motor com combustão por compressão, que deu origem ao Ciclo Otto.

Ambos os ciclos podem operar com motores a 2 tempos ou 4 tempos.






Cilindro do motor

A Figura 1 apresenta um cilindro de motor de combustão interna composto por Pistão, Biela e Virabrequim.

O Cilindro possui diâmetro – b – e excursiona ao longo do eixo y entre dois pontos; o Ponto Morto Superior (PMS) e o Ponto Morto Inferior (PMI).

Figura 1. Cilindro de motor de combustão interna

A denominação de ponto morto se originou no fato de que a velocidade do pistão se anula e inverte nesses pontos.

A Biela possui comprimento l e conecta o Pistão ao Virabrequim.

Por sua vez, o Virabrequim possui raio a e transforma o movimento linear do pistão em movimento circular no eixo da máquina. O raio do Virabrequim, denominado de Stroke, determina a distância entre os pontos morto do motor, que equivale à duas vezes o raio do Virabrequim.

O PMS representa a referência zero do ângulo do virabrequim – θ, onde o volume do cilindro atinge o valor mínimo. 

Consequentemente, o PMI ocorre com o ângulo θ igual a 180o determinando o volume máximo do cilindro.

A Tabela abaixo apresenta os dados de motor da mesma família do apresentado no vídeo acima.

O Volume de Deslocamento do Motor – Vd – equivale à variação de volume no cilindro vezes o número de cilindros do motor de acordo com a Equação 1.

Equação 1. Volume de Deslocamento do motor

Onde: 

    • Nc é o número de cilindros;
    • Vmax é o volume máximo;
    • Vmin é o volume mínimo;
    • Ac é a área do cilindro;
    • S é o deslocamento do cilindro;
    • b é o diâmetro do cilindro.

Expressa-se o Volume de Deslocamento em cm3 ou litros e ele determina o torque do motor. 1

Adicionalmente, define-se a Taxa de Compressão do motor – Tc – como:

Equação 2. Taxa de Compressão

A equação 3 determina o trabalho líquido realizado por um cilindro por ciclo de rotação.

Equação 3. Trabalho líquido fornecido por cilindro por ciclo

Onde:

    • wliq é o trabalho líquido fornecido por cilindro por ciclo
    • Vmax é o volume máximo do cilindro;
    • Vmin é o volume mínimo do cilindro;
    • v é o volume.

Em função disso, a Equação 4 mostra a potência mecânica fornecida pelo motor.

Equação 4. Potência mecânica do motor

Onde:

    • Pt[W] é a potência mecânica fornecida pelo motor;
    • Pm[Pa] é a pressão média efetiva no cilindro;
    • Vd[m3] é o volume de deslocamento do motor;
    • RPM[1/60 s] é a velocidade angular do motor em rotações por minuto;
    • nt é o número de tempos do motor.

A análise da Equação 4 mostra que:

    1. motores de dois tempos produzem mais potência do que motores de quatro tempos de mesmas dimensões.
    2. motores operando em velocidades mais elevadas produzem mais potência do que motores mais lentos de mesmas dimensões.
    3. motores com maior volume de deslocamento produzem mais potência.
    4. motores com maiores pressões médias produzem mais potência.

Exemplo #1

Calcule a potência mecânica máxima fornecida pelo motor da tabela abaixo.

Solução

Observa-se que o valor encontrado foi 5,9% maior do que o valor máximo apresentado na Tabela.

A explicação se encontra nas perdas mecânicas inerentes ao funcionamento do motor.

A Equação 4 não considera as perdas por atrito e ventilação do motor nem as perdas de equipamentos auxiliares inerentes ao funcionamento da máquina. 

Dados Técnicos - Wärtsilä RT-flex96

Tipo2 tempos
Diâmetro / Bore (mm)960
Movimento/ Stroke (mm)2500
Deslocamento (l/cilindro)1.820
Velocidade (rpm)22-102
Mean Effective Pressure1,96 MPa @ 100% carga
1,37 MPa @ 85% carga -eficiência máxima
Velocidade média do pistão (m/s)8,5
Consumo específico (g/kWh)171
Potência máx (kW/cilindro)5.720
Torque máx ( N.m @ 102 rpm)7.603.850
Densidade de Potência (kW/ton)29,6 a 34,8
massa de combustível injetada ( g/cilindro/ciclo)160 g @ plena carga
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/W%C3%A4rtsil%C3%A4-Sulzer_RTA96-C


Questões Propostas

    1. Por que a maioria dos automóveis utiliza motores de quatro tempos?
    2. Por que grandes navios utilizam motores de dois tempos?
    3. Por que a geração de emergência utiliza motores de alta velocidade?
    4. Por que a geração de energia utiliza motores de média velocidade e de quatro tempos?
    5. Por que a propulsão de navios utiliza motores de baixa velocidade?

 


A tabela abaixo apresenta as três categorias de motores em função da velocidade de operação.

A Equação 4 mostra que motores de alta rotação produzem mais potência do que motores de mesmas dimensões, mas de velocidades menores.

Portanto, motores de alta velocidade deveriam dominar o mercado por serem mais baratos. 2

Contudo, como altas rotações produzem mais perdas de atrito e ventilação, a vida útil dos motores diminui com a velocidade.

Por isso, os motores de alta rotação dominam o mercado de geração de emergência enquanto os de média rotação dominam a geração intermediária, e os de baixa rotação destinam-se à propulsão de navios.

Categorias de Motores

wdt_ID Tipo Velocidade
1 Baixa rotação < 300 rpm
2 Média Rotação 300 - 1000 rpm
3 Alta Rotação > 1000 rpm

Além disso, como motores de dois tempos produzem teoricamente o dobro da potência de motores de quatro tempos, os motores gigantescos ou pequenos são de dois tempos, e os demais de quatro tempos.

Ciclo Otto

A Figura 2 mostra o diagrama P-V do Ciclo Otto, o ciclo termodinâmico ideal que aproxima o funcionamento de motores de combustão interna que utilizam sistemas de ignição externos.

O ponto 1 representa o início do processo de compressão, quando o cilindro se encontra no ponto morto inferior.

O ponto 2 representa o fim do processo de compressão do ar no cilindro, que ocorre de forma isentrópica. Nesse processo, o pistão se desloca do ponto morto inferior até o ponto morto superior, representando o primeiro tempo do motor. 3 Durante esse tempo o pistão retira a energia necessária para a compressão do eixo do motor.

Figura 2. Pressão x volume – Ciclo Otto

A transição entre os pontos 2 e 3 representa o processo de combustão da mistura ar-combustível (injeção de energia térmica no sistema), que ocorre com o pistão parado no ponto morto superior. Durante esse segundo tempo, a pressão no cilindro aumenta rapidamente, mas o volume permanece constante porque o pistão permanece imóvel. Durante esse tempo, a energia do combustível se transforma em energia térmica no cilindro.

O terceiro tempo começa após alguns instantes, quando a força da explosão provoca o deslocamento do pistão do PMS- ponto 3- para o PMI – ponto 4. Durante esse processo isentrópico, o volume dos gases aumenta, a temperatura diminui e o pistão converte parte da energia da combustão em trabalho mecânico.

Finalmente, no quarto tempo entre os pontos 4 e 1, o volume de gases resultantes da queima do combustível após a expansão é expelido para a atmosfera através do movimento do pistão, representando a transferência de calor para a fonte fria. Verifica-se que o pistão retira a energia necessária para realizar esse trabalho mecânico do eixo do motor, o volume permanece constante, e a pressão diminui para o valor da pressão atmosférica.

Portanto, o motor produz trabalho mecânico apenas em um tempo, absorve energia em outros dois, e durante a explosão do combustível não gera nem absorve trabalho mecânico.

Em decorrência disso, os engenheiros criaram o motor de dois tempos para reduzir a absorção de trabalho mecânico no funcionamento do motor.

A Equação 5 apresenta o rendimento do ciclo Otto. Observa-se que os gases resultantes da combustão produzem ambos os fluxos de calor e, em decorrência disso, o calor específico na equação desaparece. Porém, essa simplificação requer que o calor específico independa da temperatura. 4

Equação 5. Rendimento ciclo Otto

Colocando T1 e T2 em evidência na Equação 5, obtem-se a seguinte expressão:

Equação 6

A relação de temperaturas se relaciona com a relação de volume em gases da seguinte maneira:

Equação 7

Define-se a Taxa de Compressão – r – em motores de combustão interna da seguinte maneira:

Equação 8. Taxa de compressão

Deve-se observar que a taxa de compressão de motores é uma relação entre volumes, enquanto a taxa de compressão em turbinas é uma relação de pressões.

Substituindo as Equações 8 e 7 na Equação 6, obtêm-se o rendimento teórico do ciclo Otto.

Equação 9. Rendimento do ciclo Otto

Onde:

Portanto, o rendimento dos motores a explosão funcionado de acordo com o Ciclo Otto depende apenas da taxa de compressão.

O aumento da taxa de compressão nos motores de combustão interna melhora o rendimento, mas a detonação espontânea do combustível pela pressão6 limita o rendimento prático dessas máquinas.

Observa-se que a expressão do rendimento do ciclo Otto parece com a expressão do rendimento do ciclo Brayton, mas as taxas de compressão são distintas assim como o expoente.

 

Ciclo Diesel

A Figura 3 mostra o Ciclo Diesel, onde o combustível é detonado por pressão. Por isso, a transferência de calor nesse ciclo ocorre a pressão constante, ao contrário do ciclo Otto onde ocorre a volume constante.

Observa-se que a área delimitada pelas linhas azuis é menor do que no caso do Ciclo Otto, o que significa menor rendimento no ciclo diesel.

Isso explica a utilização do ciclo Otto em automóveis e o ciclo diesel em caminhões, sendo o preço do diesel menor do que o da gasolina.

No caso de geração de energia, utiliza-se motores de Ciclo Otto quando operando a gás natural e Ciclo Diesel com Óleo Combustível.

Figura 3. Ciclo Diesel

A Equação 10 apresenta o rendimento do ciclo Diesel.

Equação 10. Rendimento Ciclo Diesel